Pois é dando que se recebe… – Give a Little Love

Com esse frio nada melhor do que ficar debaixo das cobertas e ouvir uma boa música. Bem, justamente hoje encontrei esse vídeo:
 
A música é muito tocante, mas penso que ela nos faz pensar sobre o amor. Mas não falo aqui do amor romântico, em direção a determinado indivíduo pelo qual se faria loucuras. Trata-se de algo mais profundo, um amor pelo ser humano, por toda uma raça, um sentimento que se dirige ao próximo.
Talvez o ritmo das nossas vidas não nos permita muito pensar nos outros, afinal nossas agendas estão cheias, assim como nossas cabeças, porém será que podemos dizer o mesmo de nossos corações? Temos conversas com amigos, familiares e conhecidos, mas não olhamos em seus olhos e, muitas vezes, sequer escutamos suas palavras. O corpo se faz presente e a mente está com seus pensamentos egoístas esperando que o outro se cale para poder expor suas ideias, pois eu quero ser ouvido, apesar de não ouvir.
É justamente esse egoísmo que mina nossa humanidade. Quando paramos de pensar no outro.

‘But if you give a little love, you can get a little love of your own’

Mas, se você der um pouco de amor, você pode ter um pouco de amor para você’

Precisamos aprender a doar, pois assim receberemos de volta. Esse é o tema da música: doação. E não trata-se de dinheiro, e sim de doar o seu ouvido para escutar um amigo falando sobre seu coração partido, doar seu tempo para ajudar alguém a aprender uma nova tarefa. Existem tantas coisas. O que vamos deixar nessa vida que passa tão depressa?
A partir dessa pergunta podemos pensar no tempo. Não sabemos quanto tempo temos, tudo passa tão rápido. É preciso tirar proveito do agora. Se não agora, então quando?
O amor e o tempo parecem temas que sempre andam de mãos dadas, talvez porque um nos leve a pensar no outro. O tempo é curto e amar é preciso, mas sem pressa. Uma música como essa não precisa de explicação, mas acredito que ela toque cada pessoa de uma forma diferente. Ela me fez pensar no tempo que perdemos com nosso egoísmo e quantas oportunidades não são realizadas porque nós simplesmente não olhamos para o outro. Quanta ajuda nós não negamos… Ninguém dá o primeiro passo, ninguém faz o primeiro ato de gentileza, mas cada um quer que alguém seja gentil consigo. É uma grande contradição e parece um ciclo vicioso, alguém precisa quebrá-lo.
‘And my love is my whole being
And I’ve shared what I could’
[E o meu amor é todo o meu ser
E eu já compartilhei o que podia] 

Mary e Max – Uma Amizade Diferente

Baseado em fatos reais, Mary e Max nos conta sobre um encantador e improvável amor. Um amor diferente. Um amor fraterno. Nos apresenta a história de amizade entre uma menina de 8 anos, a Australiana Mary Daisy Dinkle, e um senhor Nova-iorquino de 44 anos, Max Jerry Dorowitz, cujas vidas se cruzam num encontro completamente genuíno: um reencontro de Almas entre duas criaturas que nunca se encontraram pessoalmente. Um amor baseado na confiança e no respeito, vencendo todas as barreiras emocionais, psicológicas e geográficas. Uma relação que mudará para sempre suas vidas.
O filme usa de delicadeza e humor para tratar de temas um tanto quanto indigestos e complexos como: rejeição, abandono, obesidade mórbida, alcoolismo, luto, transtornos psíquicos, bullying e homossexualismo. Através da troca de correspondências, descobrem uma grande afinidade. Seus históricos de abandono e solidão permite-lhes o compartilhamento de uma mesma dor: a falta de amor.
Quem nunca desejou ter alguém com quem dividir seu mundo, angústias, temores, ideias, alegrias e dores? Alguém que nos compreenda de forma íntegra, sem julgamentos, alguém para confiar seus mais íntimos segredos e desejos? Quem nunca precisou de um verdadeiro amigo? É o que podemos encontrar em Mary e Max – Uma Amizade Diferente.  Através do relacionamento por cartas, os protagonistas realizam juntos seu Processo de Individuação, termo da Psicologia Junguiana que diz respeito ao processo de transformação do ser humano, do Ego que parte em direção ao Self, em busca do autoconhecimento. 
A realidade das personagens nos remete a uma reflexão acerca da dificuldade que temos em estabelecer vínculos, o que na verdade reflete um distanciamento de nós mesmos, cujo sofrimento se concretiza na tentativa frustrante de procurar no mundo exterior aquilo que se deve procurar no próprio interior. É preciso que se tenha a capacidade de se conhecer, aceitar, amar, se acolher, relacionar-se consigo mesmo, para poder se relacionar com o outro. Os solitários não são pessoas distantes de outras, são apenas vazios de si próprio.
 O que me lembra o poema Solidão, de Fátima Irene Pinto:

Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo…
isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos
pela ausência de entes queridos que não podem
mais voltar…
isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente
se impõe às vezes, para realinhar os pensamentos…
isto é equilíbrio.
Tampouco é o retiro involuntário que o destino
nos impõe compulsoriamente para que reveja a
nossa vida…
isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado…
isto é circunstância.
Solidão é muito mais que isto…
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão, pela nossa Alma!

O filme fala das emoções através dos conflitos dos personagens e de como muitas vezes as reprimimos ao invés de expressá-las de forma saudável. Mary é uma garota muito sensível e emocional, enquanto Max é racional e pragmático, mas que também tem lá suas frustrações. A menina vive em uma dinâmica familiar totalmente desestruturada; não tem amigos, exceto um galo; é alvo de chacota na escola e tem baixa auto-estima, enquanto o Nova-iorquino enfrentava seus problemas de convívio social, emocional e psicológico providos da Síndrome de Asperger. É possível observar um baile de emoções : alegria, tristeza, dor, ansiedade, medo, raiva, ternura. Os Tipos Psicológicos dos dois eram assim completamente opostos, mas se completavam.  As vidas solitárias de Mary e Max são acalentadas pela troca mútua de confiança, amor, carinho e respeito. Suas dúvidas, prazeres e lamentações são compartilhados de modo que, compreendendo as falha e virtudes um do outro, encontraram a capacidade de compreender, cada um, a si mesmo.
Às vezes nossa vida parece estagnada num tom acinzentado, solitária, como a de Max, ou melancólica e marrom, como a de Mary.
Reconhecemos um amigo de verdade quando as cores individuais se entrelaçam e salpicam nossa vida num novo tom, cuja representação de tamanho avivamento não poderia ser outra a não ser a cor vermelha, a cor do amor.
Max finalmente consegue expressar suas emoções, graças as lágrimas emprestadas por sua amiga Mary. E pela primeira vez, Mary sente que é verdadeiramente especial para alguém, graças ao amor de sua amigo Max.

“O motivo pelo qual lhe perdôo é porque você não é perfeita, igual a mim. Todos os seres humanos são imperfeitos, igual a mim e a você. Quando eu era jovem queria ser outra pessoa, qualquer uma, menos eu. Se eu tivesse em uma ilha, sozinho, teria que me acostumar comigo mesmo. Tinha que aceitar-me com meus defeitos e tudo mais. Não escolhemos nossos defeitos, eles são parte de nós e temos que conviver com eles. Podemos no entanto escolher nossos amigos. E estou feliz por ter escolhido você. A vida de todo mundo é uma calçada longa, umas bem pavimentadas, outras rachadas, cheias de guimbas e cascas. A sua é igual a minha, cheia de rachaduras. Espero que um dia nossas calçadas se encontrem, e poderemos compartilhar uma lata de leite condensado. Você é minha melhor amiga. Minha única amiga.”

O Fabuloso Sentido da Vida de Amélie Poulain

Muitas vezes nos questionamos acerca de nossa contribuição para nossa raça. Qual tijolo colocaremos na construção do grande templo que é nosso mundo?
É uma mísera parcela de um grande campo de possibilidades que o filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, França: 2001) nos permite refletir. Exercício completamente perturbador para quem vive se engalfinhando com a própria alma. No entanto, quem nunca viveu a experiência angustiante de procurar sentido na própria existência? 

Amélie Poulain teve uma infância capaz de desestruturar o amadurecimento emocional e psicológico de qualquer ser humano. Privada de contato afetivo, a pequena constrói um mundo apenas seu, um espaço onde possa desfrutar de toda sua criatividade infantil e de relações de amizade vivenciadas com seus amigos imaginários. Após a morte da mãe e o conseqüente agravamento no distanciamento do pai, a criança acaba por reprimir todo seu sofrimento, entregando-se ainda mais àquela espécie de universo paralelo, o qual permite que a personagem cresça com uma grande e inusitada capacidade imaginativa acerca das possibilidades da vida real, além de uma excepcional sensibilidade em captar as necessidades alheias. Amélie aprende a conhecer e se relacionar com o mundo a partir de um modo singular, o que me faz lembrar de Kant e sua diferenciação entre “pensar” e “conhecer”, onde postula que o homem tem uma necessidade de “pensar além dos limites do conhecimento”. O “pensar” aqui instituído como um “criar” e não simplesmente armazenar, como me remete o “conhecer”.
 Após encontrar em seu novo apartamento uma caixa guardada há quarenta anos com objetos pessoais do ex-morador, a protagonista que antes era aprisionada pela vida cotidiana é instigada acerca a mudança que poderia causar na vida do homem que recuperasse suas pequenas alegrias guardadas na caixa. É dada a largada de uma busca frenética pelo dono das lembranças. 

 Durante sua aventura, Amélie conhece de perto as prisões emocionais vividas por algumas personagens, e motivada pelo sucesso de ter encontrado e ter feito feliz o dono da caixa, ela é despertada para uma nova crença: a de que o destino de cada um cabe ser escrito por si mesmo, o indivíduo como responsável pela sua própria vida. Determinada a dar um up em seu destino, Amélie Poulain parte em dispara para a escrita de sua própria história, e para isso cria artimanhas tão hilárias e comoventes quanto os recursos que utiliza para possibilitar que as pessoas ao seu redor também sejam pegas de surpresa por pequenas mudanças em suas vidas. Na tentativa alucinante de tentar ajudar os outros, Amélie se depara com um pintor, senhor de ossos de vidro, que a conduz para uma reflexão de si mesma. 
“Pintor: “Ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente do que criar laços com aqueles que estão presentes.” Amelie: “Hummm, pelo contrário. Talvez faça de tudo para arrumar a vida dos outros.” Pintor: “E ela? E as suas desordens? Quem vai pôr em ordem?”
De repente, a melhor resposta que possamos encontrar esteja mesmo na filosofia de Sartre, que afirma ser a vida um acaso, que não há sentido na existência. E pelo fato de estarmos lançados no mundo ao acaso, sem aviso prévio, somos nós os únicos responsáveis pela construção do que somos e vivemos.
O filme mostra, assim como defende o filósofo humanista Kierkegaard, que o mais importante do que a busca por uma única verdade é a busca por verdades que são importantes para a vida de cada indivíduo. A minha verdade. A verdade de cada um. Verdades pessoais. Questões com as quais cada um tem de se confrontar sozinho. Kierkegaard entendia por “existência”, verdade subjetiva e fé. Dizia que a sociedade urbana moderna tinha transformado o homem em “público”, em “instância coletiva”, e a primeira característica da multidão é justamente o que hoje podemos chamar de conformidade, ou seja, o fato de que todos acham ou defendam uma mesma coisa, mas ninguém tem uma relação verdadeiramente apaixonada com o tema. As pessoas se relacionam de forma inconseqüente com a vida. E não deveria ser assim. Quando você se envolve em questões com as quais está profundamente envolvido, elas passam a ser existencialmente importantes para você. Além do mais, o homem não experimenta sua existência atrás de escrivaninhas. Somente quando agimos e fazemos uma escolha, é que nos relacionamos com nossa própria existência. É o que a encantadora Amélie Poulain nos ensina, através das peças pregadas nas pessoas a sua volta e em seu  destino fabulado. Aproveito para destacar o título, que sugere uma divertida ironia provinda dos termos “fabuloso”, do ato de fabular – inventar, criar – e “destino”, que designa um fado, aquilo do que ninguém pode escapar. Dessa forma, o título confirma o que foi postulado por Kant e comprovado por Amélie, de que o futuro é imaginado e construído apenas por cada um de nós.
Em ultima instância, a plenitude da vida é composta  por pequenos momentos prazerosos, gestos que sobressaltam em meio  ao tédio do cotidiano.


“(…) Então, minha querida Amélie, você não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar essa chance, então, com o tempo, seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto. Então, vá em frente, pelo amor de Deus.”

Uma encruzilhada, vários caminhos e uma tabacaria – Tabacaria

Vez ou outra nossa vida parece estagnar, talvez seja como um viajante que, a noite e sem conhecer o caminho, para em uma encruzilhada, perdido, sem saber qual caminho seguir. Porém o viajante tem ainda uma vantagem, é possível retornar, retomar o caminho certo caso decida-se pelo errado, privilégio que não nos é concedido na maioria das escolhas que fazemos na vida, principalmente naquelas que mais importam. Tão numerosas quanto as placas que se mostram aos olhos do viajante noturno são as questões que, vez ou outra, andam por nossa mente como que as apalpadelas procurando seu par, procurando sua resposta, que muitas vezes não existe.

Assim nossa mente é povoada por perguntas, desde as mais simples como: ‘qual carreira seguir’, até aquelas que vagam a mais de séculos sem resposta: ‘qual o sentido da vida?’ Experimentamos então um leve sentimento, algo entre um vazio no peito e uma pressão nos olhos, alguns chamariam de angústia, tristeza, crise, pouco importa o nome para aquele que sente. Pouco importa ao enfermo saber o nome da enfermidade, lhe é mais útil buscar o remédio. Mas não existem farmácias que vendam respostas, aliás se algum lugar as venderia acredito que seria a biblioteca, porém lá, frequentemente, encontramos mais perguntas do que respostas. 
Como curar esse sentimento então? Bom, não existe uma resposta genérica, cada um precisa encontrar sua dose homeopática que lhe dará o alívio momentâneo, aquele que lhe permitirá repousar e recomeçar a busca pela cura. Particularmente gosto de visitar a ‘Tabacaria’ de Álvaro de Campos. A Tabacaria é como um porto seguro quando a mente está muito tempestuosa. É como encontrar um rosto conhecido em meio a faces hostis e estranhas, aquele momento em que você já não está mais sozinho, agora existe mais alguém, uma face amiga que te entende.
Existe pouco a dizer sobre esse fantástico poema, um tanto pessimista. O poeta conseguiu transmitir pontualmente a inevitável frustração daqueles que sonham alto, pois estes tem desejos difíceis de serem realizados e sua persistência é constantemente posta à prova. Assim como o eu-lírico do poema, muitas vezes nos sentimos desanimados, afinal temos grandes sonhos, desejos e ideias e estes demandam grande esforço para serem realizados, e as falhas fazer parte do trajeto, bem como o sentimento de impotência que muitas vezes nos atinge. Quando somos abatidos por esses sentimento a Tabacaria torna-se o lugar acolhedor para onde podemos voltar.
Porém existe uma contradição no poema à qual o leitor deve ser atento e que serve como reflexão. Falta ação, o personagem, apesar de seus belos pensamento, não age em nenhum momento, assim suas palavras morrem na rotina de sua vida. Que tal fim não seja repetido por aquele que lê! Mas que este encontre animo nos pensamentos expressos no poema e, ao contrário do homem que fica apenas à janela observando a tabacaria do outro lado da rua, que volte a tabacaria quando preciso, porém que ela não seja um ponto de fixação. Quem sonha grande precisa ter coragem de correr atrás do que almeja, não se pode gastar a vida divagando e olhando pela janela, é preciso sair e ver o mundo.
Finalizo com as palavras de Álvaro de Campos:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Um teatro e muitas perguntas – Análise do Livro Entre os Atos

É incrível a variedade de estilos de escrita. Existem aqueles que nos mostram coisas que não sabíamos que existiam dentro de nós, outros nos fazem embarcar em viagens inesquecíveis a reinos distantes, por fim existem aqueles que nos mostram o cotidiano, aquilo que vemos todos os dias mas não conseguimos nomear e, por vezes, sequer olhar e admitir a existência. 
Neste último grupo encontra-se a escritora Virginia Woolf, sua escrita é ao mesmo tempo leve e densa, cheia de ideias que vão e voltam em um turbilhão. Recentemente tive contato com sua obra intitulada ‘Entre os Atos’, recheada de personagens variados e com um enredo aparentemente muito simples, porém para o leitor atento é possível encontrar várias críticas a sociedade. 
O que chama a atenção no livro é a maneira como a autora faz saltar aos olhos do leitor pensamentos corriqueiros que desmascaram as personagens, deixando-as desprotegidas diante do olhar daqueles que tem o livro nas mãos. Como resultado é possível identificar várias pessoas que não são tão diferentes das que se encontram retratadas na obra, com alguma sorte e pouco orgulho é possível também identificar-se com uma personagem, ou com a característica de várias. 
Porém, deixando de lado as identificações e características das personagens, creio que um tema central do livro seja o tempo. “São as mesmas pessoas com roupas diferentes”, o que muda de geração para geração? Seriam apenas as roupas ou existe algo mais? Talvez uma geração passe à outra um fardo: o fardo de repetir. Por que viver algo que seus pais não viveram? Eles são felizes sem isso! Repita o que eles fizeram. É como um trato velado, não se fala sobre, ele apenas existe, como um fantasma o qual não se ousa sequer pronunciar o nome. Não é possível combatê-lo pois sua existência é negada. Assim carregamos as expectativas de casar, como nossos pais casaram, trabalhar, e não aceita-se qualquer emprego, precisa ser um que renda dinheiro, você não precisa gostar do que faz, pois foi isso que eles fizeram.
O choque entre as gerações é ilustrado pela briga entre Sir Spaniel (um senhor da idade da tia de Flavinda) e Valentino, ambos tentam se casar com Flavinda. Duas gerações competindo e quem ganha é a geração mais nova. Quem vence a batalha é impossível dizer, afinal depende de cada um. 
Porém, quanto tempo estamos dispostos a permanecer presos? O relógio não pára e o tempo vai escoando por nossas mãos enquanto nos ocupamos dos fardos deixados por outros. ‘Estavam aprisionados; engaiolados; assistindo a um espetáculo. Nada acontecia. O tique-tique do aparelho era enlouquecedor.’ Assim permanecem muitas pessoas, sentadas olhando a vida passar, escutando o relógio marcando a inevitável passagem do tempo, fenômeno que nunca foi bem aceito pelo ser humano. Sente-se a inércia e o tempo escoando, a vida pede que algo aconteça, porém sem resposta.
 É preciso libertar-se e para isso torna-se necessário, conhecer-se, olhar para si mesmo, exercício oferecido aos personagens do livro ao final da peça, quando a platéia se depara com espelhos e a experiência os deixa extremamente desconfortáveis pois foram pegos desprevenidos. Assim a peça termina e os espectadores são agora protagonistas de suas próprias vidas, é preciso seguir em frente, porém nada muda, são as mesmas pessoas. 

Penso que a obra nos questiona acerca do tempo e das mudanças. O que temos feito com o precioso tempo que nos foi dado? A ampulheta da vida não ficará sempre ativa, um dia a areia esgota-se. Quando esta acabar olharemos para trás e o que veremos? Fizemos o que queríamos ou o que queriam que fizéssemos? Quais marcas deixaremos no mundo? Deixaremos alguma, afinal, ou nossa existência desaparecerá como uma pegada no grande deserto do mundo? 
Assim, para finalizar o texto, nada mais propício que pegar um trecho do livro em questão:

“E se ficamos assim cheios de dúvidas, a peça não terá sido um fracasso? Eu gosto é de ter certeza de que entendi tudo quando vou ao teatro… Ou quem sabe o que ela queria dizer… e que, se não chegamos logo a uma conclusão, e você pensa de uma forma e eu de outra, ainda que pensando diferentemente, um dia pensaremos a mesma coisa?”