Teatro das Escolhas

Em alguns momentos de nossas vidas precisamos tomar algumas decisões, muitas vezes, na maioria das vezes, não é fácil. É necessário que entremos em contato com quem somos, coisa que nunca foi fácil. Porém, ironicamente, não temos escolha, temos que escolher. Diante dessas escolhas cruéis que vestem a máscara de irreversíveis (elas raramente são, fazem isso para nos assustar) me deparei com um trecho de uma música que ilustra bem tudo isso:

Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto

[Teatro dos Vampiros – Legião Urbana]

 Durante nossas vidas, somos obrigados a saber! Saber desde pequenininhos a responder aquela pergunta ‘e ai joãozinho, já sabe o que quer ser quando crescer?’ A resposta quase sempre vem com uma profissão admirada pela criança. Uns querem ser bombeiros, outros jogadores de futebol, para as meninas, bailarina. E os adultos se riem, afinal sabem que poucas vezes isso vai mesmo se concretizar. Mas, como tudo nessa vida, as coisas tendem a piorar. No colegial podemos sentir a grande mochila das expectativas alheias, sejam familiares ou sociais. Como se houvesse um roteiro, um tanto quanto secreto, logo chega a pergunta: ‘em que série você está?’, a esta segue-se ‘e o que você vai fazer de faculdade?’ ‘Não sei.’ ‘Já está na hora de decidir!’
Por que decidir? Existe algum momento certo para decidir alguma coisa? Acho que hoje em dia não temos muito espaço para as indecisões. Tudo é muito rápido e precisamos ser mais rápidos ainda, o futuro está chegando e estamos envelhecendo, precisamos decidir o que queremos ser e precisa ser hoje, precisa ser rápido, não há tempo para muita reflexão, mas também não há espaço para erros.
Acabamos sendo privados de nossas próprias dúvidas. E somos empurrados para qualquer canto e podemos aprender a gostar daquele cantinho depois, com o tempo. E o que deveria ser uma jornada rumo ao autoconhecimento passa a ser uma corrida rumo à frustração.
Por fim, acabamos nossas vidas sem saber quem somos, nos definindo pelo que fazemos e, muitas vezes, nem gostamos do que fazemos, mas não tivemos muito tempo para pensar no assunto. Acabamos tocando em frente, sem que uma boa alma nos tomasse pela mão e nos ajudasse a sair da campina das certezas absolutas e nos ensinasse a andar pelo pântano das dúvidas, nos mostrando que o caminho é difícil, mas o resultado é sempre melhor.

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