Ler pode fazer mal…

Tenho o hábito de ler um romance a noite, obviamente partes dele. Um capítulo, mais ou menos. Mas ontem decidi não ler. Queria entrar na média da população, chegar a noite e deitar pesadamente na cama e dormir. Todo mundo nos avisa dos benefícios da leitura, mas poucas são as boas almas que cruzam o nosso caminho e nos alertam de seus perigos! Pois bem, darei vazão ao meu pessimismo nessa noite e farei um breve relato do porque, na minha opinião, ler é perigoso.
Você ficará sozinho. Sim, ler vai te levar a milhares de lugares maravilhosos e te fará conhecer pessoas incríveis, mas quando o livro se fechar você estará um pouco mais apartado da humanidade. Alguém poderia argumentar ‘mas ler nos coloca em contato com o mundo.’ Sim, de fato, mas existe uma solidão que só um leitor ávido conhece. Quando estamos lendo nossa mente se ilumina de tal maneira que precisamos falar sobre o que estamos vivendo lendo, é um desperdício tremendo o fato de termos que guardar nossas ideias para nós. Mas ao olharmos por sobre os ombros não encontramos viva alma que nos compreenda, que tenha lido aquilo, que tenha argumentos para uma boa discussão, ou então, essa é a parte que mais dói, as vezes não existe um ser disposto a simplesmente te emprestar um tempo para te ouvir falar. ‘Em um deserto, de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.’ Porém enquanto não a encontramos, vagamos errantes e mudos pelo mundo.
Você vai sofrer. Sim, você vai sofrer enquanto lê. Simplesmente natural, um personagem morre, você fecha o livro, respira fundo, o nó da garganta sobe e as lágrimas se libertam.
Você se torna uma pessoa revoltada. O fim do livro foi muito ruim ou você torcia por um romance e ele não ocorreu. É, na vida nem tudo é como queremos.
Você é considerado estranho. Afinal, quem é o indivíduo que prefere ler um romance escrito a 40 anos ao invés de ficar no WhatsApp?
Você nunca vai conseguir ler todos os livros que gostaria. Minha lista já tem dez metros, e o valor dos livros já ultrapassa o PIB de alguns países pequenos.
Você corre o risco de ficar viciado. Aquela velha frase ‘só mais um capítulo e eu vou dormir’, mas você não ia conseguir dormir mesmo, você precisa ver o que vai acontecer!
Você será enganado pelo autor, vai ler mentiras e não vai nem se importar com isso!
Acredito serem estes os problemas que assolam a maioria dos leitores, alguns mais difíceis de conviver, outros menos, mas afinal, o que o mundo real não tem, os livros preenchem! Para finalizar, acho propício compartilhar uma frase da autora Ursula LeGuin:

“De fato, enquanto lemos um livro, nós somos insanos – malucos. Nós acreditamos na existência de pessoas que não estão aqui, nós ouvimos suas vozes, nós assistimos a batalha de Borodino com eles, nós podemos até nós tornar Napoleão. A sanidade retorna (em alguns casos) quando o livro é fechado…

Quando lemos um livro, qualquer livro, nós sabemos perfeitamente bem que tudo é um absurdo, e então, enquanto lemos, acreditamos em cada palavra . Finalmente, quando terminamos de ler, podemos descobrir – se for um bom livro – que nós estamos um pouco diferentes do que éramos antes de lermos ele, que nós mudamos um pouco, como se tivéssemos encontrado uma nova face, cruzado uma rua que nunca havíamos cruzado antes. Mas é muito difícil dizer o que acabamos de aprender, como nós mudamos.” 

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