Ou isto ou aquilo…

‘O desespero eu aguento. O que me apavora é essa esperança.’ 

Me deparei com a frase acima logo pela manhã. O dito é de Millôr Fernandes, me fez pensar muito, assim como eu espero que o faça com aquele que tiver diante dos olhos este texto. 
Durante nossas vidas somos inevitavelmente apresentados a milhões de oportunidades que nos levam a realizar outro incontável número de escolhas. Assim, diante de infinitas possibilidades somos obrigados levados a escolher apenas uma, enterrando em nosso passado as outras. Por exemplo, uma vez que escolho ser arquiteto, não posso ser músico, ou poeta, ou médico. Dessa forma, o mundo jamais conhecerá as músicas que eu poderia compor, ou meus poemas, e talvez se percam vidas que eu poderia salvar. 
Assim, cada escolha que fazemos traz consigo certa nostalgia do que poderia ter sido e agora jamais será! Nossa imaginação aflora tal qual uma árvore na primavera e então temos o pensamento recheado de possibilidades que jamais serão e isso pode fazer com que nos sintamos mal. Porém nada nos resta a não ser esperar que o outono venha e retire da nossa mente esses pensamentos, que acabam por ser mais espinhos do que flores. Principalmente quando sentimos ter feito a escolha errada, sempre voltamos nossos olhares para o momento da escolha e imaginamos o que seria diferente se tivéssemos escolhido outra coisa. 
Se muitas vezes as possibilidades já concretizadas nos atormentam, por sempre nos voltarmos ao que poderia ter sido e não foi, o que dizer então do que pode ser e ainda não foi? Ah! Creio ser um sofrimento maior ainda, tal qual nos diz Millôr, e repito: ‘O desespero eu aguento. O que me atormenta é essa esperança’! E como atormenta! Quem nunca sentiu a dor da espera? Quando a esperança se extingue nós podemos nos conformar, mas enquanto sua chama está acessa precisamos agir ou precisamos esperar para que aquilo que há de ser se realize ou caia por terra, e finalmente apague a frágil chama da esperança.
Quando olhamos para a frente e vemos todos os caminhos que podemos seguir, ficamos felizes, porém, quando constatamos a possibilidade de seguir apenas um, aí sim temos o verdadeiro desespero. Temos o mundo inteiro dentro de nós, mas não podemos tê-lo todo fora, precisamos escolher uma parte só. A poetisa Cecília Meireles foi capaz de captar muito singelamente as dificuldades das escolhas, portanto termino esse texto com um pequeno poema:


Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo


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