O Fabuloso Sentido da Vida de Amélie Poulain

Muitas vezes nos questionamos acerca de nossa contribuição para nossa raça. Qual tijolo colocaremos na construção do grande templo que é nosso mundo?
É uma mísera parcela de um grande campo de possibilidades que o filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, França: 2001) nos permite refletir. Exercício completamente perturbador para quem vive se engalfinhando com a própria alma. No entanto, quem nunca viveu a experiência angustiante de procurar sentido na própria existência? 

Amélie Poulain teve uma infância capaz de desestruturar o amadurecimento emocional e psicológico de qualquer ser humano. Privada de contato afetivo, a pequena constrói um mundo apenas seu, um espaço onde possa desfrutar de toda sua criatividade infantil e de relações de amizade vivenciadas com seus amigos imaginários. Após a morte da mãe e o conseqüente agravamento no distanciamento do pai, a criança acaba por reprimir todo seu sofrimento, entregando-se ainda mais àquela espécie de universo paralelo, o qual permite que a personagem cresça com uma grande e inusitada capacidade imaginativa acerca das possibilidades da vida real, além de uma excepcional sensibilidade em captar as necessidades alheias. Amélie aprende a conhecer e se relacionar com o mundo a partir de um modo singular, o que me faz lembrar de Kant e sua diferenciação entre “pensar” e “conhecer”, onde postula que o homem tem uma necessidade de “pensar além dos limites do conhecimento”. O “pensar” aqui instituído como um “criar” e não simplesmente armazenar, como me remete o “conhecer”.
 Após encontrar em seu novo apartamento uma caixa guardada há quarenta anos com objetos pessoais do ex-morador, a protagonista que antes era aprisionada pela vida cotidiana é instigada acerca a mudança que poderia causar na vida do homem que recuperasse suas pequenas alegrias guardadas na caixa. É dada a largada de uma busca frenética pelo dono das lembranças. 

 Durante sua aventura, Amélie conhece de perto as prisões emocionais vividas por algumas personagens, e motivada pelo sucesso de ter encontrado e ter feito feliz o dono da caixa, ela é despertada para uma nova crença: a de que o destino de cada um cabe ser escrito por si mesmo, o indivíduo como responsável pela sua própria vida. Determinada a dar um up em seu destino, Amélie Poulain parte em dispara para a escrita de sua própria história, e para isso cria artimanhas tão hilárias e comoventes quanto os recursos que utiliza para possibilitar que as pessoas ao seu redor também sejam pegas de surpresa por pequenas mudanças em suas vidas. Na tentativa alucinante de tentar ajudar os outros, Amélie se depara com um pintor, senhor de ossos de vidro, que a conduz para uma reflexão de si mesma. 
“Pintor: “Ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente do que criar laços com aqueles que estão presentes.” Amelie: “Hummm, pelo contrário. Talvez faça de tudo para arrumar a vida dos outros.” Pintor: “E ela? E as suas desordens? Quem vai pôr em ordem?”
De repente, a melhor resposta que possamos encontrar esteja mesmo na filosofia de Sartre, que afirma ser a vida um acaso, que não há sentido na existência. E pelo fato de estarmos lançados no mundo ao acaso, sem aviso prévio, somos nós os únicos responsáveis pela construção do que somos e vivemos.
O filme mostra, assim como defende o filósofo humanista Kierkegaard, que o mais importante do que a busca por uma única verdade é a busca por verdades que são importantes para a vida de cada indivíduo. A minha verdade. A verdade de cada um. Verdades pessoais. Questões com as quais cada um tem de se confrontar sozinho. Kierkegaard entendia por “existência”, verdade subjetiva e fé. Dizia que a sociedade urbana moderna tinha transformado o homem em “público”, em “instância coletiva”, e a primeira característica da multidão é justamente o que hoje podemos chamar de conformidade, ou seja, o fato de que todos acham ou defendam uma mesma coisa, mas ninguém tem uma relação verdadeiramente apaixonada com o tema. As pessoas se relacionam de forma inconseqüente com a vida. E não deveria ser assim. Quando você se envolve em questões com as quais está profundamente envolvido, elas passam a ser existencialmente importantes para você. Além do mais, o homem não experimenta sua existência atrás de escrivaninhas. Somente quando agimos e fazemos uma escolha, é que nos relacionamos com nossa própria existência. É o que a encantadora Amélie Poulain nos ensina, através das peças pregadas nas pessoas a sua volta e em seu  destino fabulado. Aproveito para destacar o título, que sugere uma divertida ironia provinda dos termos “fabuloso”, do ato de fabular – inventar, criar – e “destino”, que designa um fado, aquilo do que ninguém pode escapar. Dessa forma, o título confirma o que foi postulado por Kant e comprovado por Amélie, de que o futuro é imaginado e construído apenas por cada um de nós.
Em ultima instância, a plenitude da vida é composta  por pequenos momentos prazerosos, gestos que sobressaltam em meio  ao tédio do cotidiano.


“(…) Então, minha querida Amélie, você não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar essa chance, então, com o tempo, seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto. Então, vá em frente, pelo amor de Deus.”

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