Um teatro e muitas perguntas – Análise do Livro Entre os Atos

É incrível a variedade de estilos de escrita. Existem aqueles que nos mostram coisas que não sabíamos que existiam dentro de nós, outros nos fazem embarcar em viagens inesquecíveis a reinos distantes, por fim existem aqueles que nos mostram o cotidiano, aquilo que vemos todos os dias mas não conseguimos nomear e, por vezes, sequer olhar e admitir a existência. 
Neste último grupo encontra-se a escritora Virginia Woolf, sua escrita é ao mesmo tempo leve e densa, cheia de ideias que vão e voltam em um turbilhão. Recentemente tive contato com sua obra intitulada ‘Entre os Atos’, recheada de personagens variados e com um enredo aparentemente muito simples, porém para o leitor atento é possível encontrar várias críticas a sociedade. 
O que chama a atenção no livro é a maneira como a autora faz saltar aos olhos do leitor pensamentos corriqueiros que desmascaram as personagens, deixando-as desprotegidas diante do olhar daqueles que tem o livro nas mãos. Como resultado é possível identificar várias pessoas que não são tão diferentes das que se encontram retratadas na obra, com alguma sorte e pouco orgulho é possível também identificar-se com uma personagem, ou com a característica de várias. 
Porém, deixando de lado as identificações e características das personagens, creio que um tema central do livro seja o tempo. “São as mesmas pessoas com roupas diferentes”, o que muda de geração para geração? Seriam apenas as roupas ou existe algo mais? Talvez uma geração passe à outra um fardo: o fardo de repetir. Por que viver algo que seus pais não viveram? Eles são felizes sem isso! Repita o que eles fizeram. É como um trato velado, não se fala sobre, ele apenas existe, como um fantasma o qual não se ousa sequer pronunciar o nome. Não é possível combatê-lo pois sua existência é negada. Assim carregamos as expectativas de casar, como nossos pais casaram, trabalhar, e não aceita-se qualquer emprego, precisa ser um que renda dinheiro, você não precisa gostar do que faz, pois foi isso que eles fizeram.
O choque entre as gerações é ilustrado pela briga entre Sir Spaniel (um senhor da idade da tia de Flavinda) e Valentino, ambos tentam se casar com Flavinda. Duas gerações competindo e quem ganha é a geração mais nova. Quem vence a batalha é impossível dizer, afinal depende de cada um. 
Porém, quanto tempo estamos dispostos a permanecer presos? O relógio não pára e o tempo vai escoando por nossas mãos enquanto nos ocupamos dos fardos deixados por outros. ‘Estavam aprisionados; engaiolados; assistindo a um espetáculo. Nada acontecia. O tique-tique do aparelho era enlouquecedor.’ Assim permanecem muitas pessoas, sentadas olhando a vida passar, escutando o relógio marcando a inevitável passagem do tempo, fenômeno que nunca foi bem aceito pelo ser humano. Sente-se a inércia e o tempo escoando, a vida pede que algo aconteça, porém sem resposta.
 É preciso libertar-se e para isso torna-se necessário, conhecer-se, olhar para si mesmo, exercício oferecido aos personagens do livro ao final da peça, quando a platéia se depara com espelhos e a experiência os deixa extremamente desconfortáveis pois foram pegos desprevenidos. Assim a peça termina e os espectadores são agora protagonistas de suas próprias vidas, é preciso seguir em frente, porém nada muda, são as mesmas pessoas. 

Penso que a obra nos questiona acerca do tempo e das mudanças. O que temos feito com o precioso tempo que nos foi dado? A ampulheta da vida não ficará sempre ativa, um dia a areia esgota-se. Quando esta acabar olharemos para trás e o que veremos? Fizemos o que queríamos ou o que queriam que fizéssemos? Quais marcas deixaremos no mundo? Deixaremos alguma, afinal, ou nossa existência desaparecerá como uma pegada no grande deserto do mundo? 
Assim, para finalizar o texto, nada mais propício que pegar um trecho do livro em questão:

“E se ficamos assim cheios de dúvidas, a peça não terá sido um fracasso? Eu gosto é de ter certeza de que entendi tudo quando vou ao teatro… Ou quem sabe o que ela queria dizer… e que, se não chegamos logo a uma conclusão, e você pensa de uma forma e eu de outra, ainda que pensando diferentemente, um dia pensaremos a mesma coisa?”

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