O Gato Veste Seu Terno Negro Também – MIB 3

O que nos fez sermos como somos hoje? Quais escolhas foram certas? Como saber quais as consequências de nossas escolhas? 

M.I.B 3 é um filme muito engraçado e bem famoso devido aos efeitos e aos seus antecessores. Gostaria de pontuar duas coisas que podem passar batido em um filme como esse, que, porém, merecem ser pensados. 
A primeira coisa é quando agente J pergunta para o agente K “o que foi que aconteceu com você?”. (Lembrando: foram duas vezes!) A resposta era sempre a mesma “Nada, ainda.” O que pode acontecer com alguém em 40 anos? Muita coisa! Na verdade, o que J queria saber era “o que te deixou tão duro?”, “O que te transformou tanto?”. Aqui eu me lembro de um poema da Cecília Meireles:

Retrato

Eu não tinha esse rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem esse lábio amargo.

Eu não tinha essas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha esse coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?

É justamente isso o que aconteceu com K e acontece com todas pessoas, não se dão conta de como mudam, aliás mudar não é ruim, endurecer é que é o verdadeiro pecado. O coração que não se mostra e não dá lugar às emoções, os lábios amargos que já não dizem palavras de amor, tudo isso acontecendo sem que ninguém perceba. Quando as lembranças nos invadem percebemos que perdemos algo, em algum lugar, mas não sabe-se onde. Às vezes, nem sabemos o que perdemos. Talvez tenha sido o sorriso, enterrado com tantos amigos. Por vezes é o amor, que foi roubado por uma paixão. Nunca sabemos quem levou o quê. Imagino que J poderia ter alertado K, “não endureça! Não deixe que te endureçam, não deixe que te roubem.” 
O segundo ponto do filme é o personagem Griffin, ele vê todas as possibilidades do futuro, cada possibilidade um futuro. Griffin se encontra neste quebra-cabeças esperando que as possibilidades se concretizem. O futuro se mostrando como um leque de probabilidades, apenas esperando que o destino lance os dados e uma se concretize. Gosto muito dessa ideia. Escolher visualizando as consequências talvez tornasse as escolhas mais conscientes, ou talvez só aumentasse a indecisão e o arrependimento. Não existe certeza, apenas probabilidades. Essa personagem é muito parecida com a corrente filosófica da Fenomenologia, a questão das escolhas na vida dos homens. Cada escolha um leque de possibilidades, cada escolha um arrependimento do que poderia ser, um tiro no escuro esperando acertar o alvo, nunca se sabe o que vai atingir. É assim que passamos nossa vida, escolhendo sem saber o que poderia vir-a-ser.

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