Lispector Aos Olhos De Um Gato Abusado Metido À Fenomenologia

    


          Em “As águas do mundo”, Clarice Lispector nos apresenta dois personagens que se complementam: o mar e a mulher. Ambos vastos, profundos e providos de um mistério jamais desvendado. O mar é apenas o mar. Uma grande mistura de cloretos, sulfatos, fosfatos: sais. São sais de composição química diversificada, mas que nutrem, que fazem crescer a vida, que fazem a vida desabrochar, se manter, existir. O mar é lugar de plantas, é por onde o mundo respira com a sua infinita capacidade fotossintética. São águas que se misturam de geleiras derretidas, de rios escoados. É o resultado da ação dos ventos, do aquecimento pelo Sol, do subir e descer de vapores que, condensados, atingem a imensidão da superfície e um dia retornarão de forma direta ou indireta ao mar. Um encontro de águas do mundo todo. São as mesmas águas que também já passaram por organismos procariontes e eucariontes simples e também complexos. Já conheceram seres que hoje não existem, são águas velhas. São águas experientes, que sabem como lidar com o mundo, o que podem oferecer, o que devem oferecer. Já passaram por mim, por você, por ele. As águas do mundo nos atingiram e depois voltaram. Talvez não para o mar, mas é para lá que estão a caminho, cedo ou tarde. É um eterno vir-a-ser. Para que haja o encontro entre o mar e a mulher, esses seres incognoscíveis, é necessário suspender quase todos os pré-conceitos, já que seria humanamente impossível a suspensão total. O que pode ser visto no instante em que a mulher observa o mar e se entrega, pois, naquele momento, suspende o medo e tudo o mais que sabia a respeito do mar. Agora ela tem a liberdade de contemplá-lo. Mas somente até onde a linha do horizonte permite. Aceita que a humana caiba dentro dos limites.
Muitas de suas histórias o mar jamais contou a alguém. Tem segredos e ciladas que só alguns marinheiros experientes conhecem e um sem-número de outros aventureiros, que, sem sorte, foram tragados por suas ondas e agora dormem em silêncio no mais profundo de suas águas.  Mas na praia, onde a mulher desafia as águas, não são contadas as histórias dos marinheiros vivos, tampouco a história dos que padeceram no mar. Na praia o que se observa são as ondas que, tal qual sereias, convidam os desavisados a entrarem nas águas inconstantes.




A mulher aceita o convite, e livre, sem ninguém para testemunhar sua coragem, sua escolha, sua intencionalidade, sem saber de nada, apenas sentindo e aceitando a responsabilidade de abarcar em si a história do mundo com as águas ao seu redor, a figura feminina mistura sua própria história com esta de todos os outros humanos que já estiveram no mar. O que lhe proporciona o prazer da liberdade e, ao mesmo tempo, sofrimento, causado pela dúvida em se arriscar no novo ou permanecer em solo firme. Ao se perceber incapaz diante de tanta incerteza sobre sua existência, anseia por sentido, e isso lhe dá coragem para sentir sem pensar, não se baseando em “certo ou errado” e “bom ou ruim”. Para que se tenha a coragem de prosseguir, faz-se necessário reconhecer a imprevisibilidade humana. A mulher passa a ter consciência do momento em que está vivendo e goza de grande prazer nessa nova experiência, porém, como o sentido é mutável, a mulher sente a necessidade de aprofundar-se na descoberta, fazendo com que ela explore ainda mais o desconhecido, tomando goles de conhecimento que a faz sentir menos vulnerável, compreendendo que as experiências vividas apenas fazem parte do construto de sua vida, e não uma definição do seu ser.
Agora as histórias estão entrelaças, e possuem algo em comum. Não são mais estranhos, são companheiros de viajem. Um veste o outro, ambos convivem, se aceitam, se experimentam. Na imprevisibilidade da situação a vida acontece, e ressurge, e o mar escreve novamente outra história: a história da mulher que ousa, que se abriu a novas descobertas, a novas liberdades e preenchimentos. A mulher que escolheu conhecer a história do mundo.

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