A Casa dos Pequenos Cubinhos

      


A Casa dos Pequenos Cubinhos é uma animação sem diálogo criada pelo japonês Kunio Katô, junto com a composição musical de Kenji Kondo. O curta, de pouco mais de 12 min, possibilita a abrangência de alguns conceitos psicanalíticos. A psicanálise começou como uma teoria do trauma, acreditando que, já que as histéricas viviam de lembranças, a recordação continha uma qualidade patogênica, então, utilizava-se da hipnose, que consistia em colocar o paciente de volta numa situação anterior, fornecendo um relato de tais processos mentais. O que mais tarde foi abandonado para dar lugar à associação livre. Logo o campo da psicanálise se estende para a investigação da realidade psíquica. Para Freud o objetivo da cura analítica era tornar conscientes as recordações psíquicas que foram reprimidas. O paciente deve recordar determinadas vivências, juntamente com suas respectivas emoções, pois somente assim será possível compreender que a realidade aparente nada mais é que o reflexo de lembranças esquecidas. O objeto de estudo não é o que pode ser lembrado, mas sim o que está retido no inconsciente, ou seja, justamente aquilo que se deseja esquecer. Essa interrupção da memória pode ser entendida pela psicanálise como a atuação de processos defensivos. Assim, as memórias esquecidas estão na verdade reprimidas no inconsciente por se tratarem de lembranças que trariam sofrimento para a pessoa. No curta, o personagem, ao olhar pela janela de casa, fumando cachimbo aos suspiros, parece estar vivendo uma vida sem plenitude, como se lhe faltasse algo. As casinhas empilhadas e cada vez menores fazem alusão ao então dito mecanismo de defesa, atuante na condição de proteger o personagem de suas emoções, sintetizando a situação de memorização do velhinho que, a cada casa abandonada, constrói novos muros de tijolos, tornando-o cada vez mais distante de suas lembranças, que vão ficando pequenininhas, assim como o espaço que precisa pra viver, do tamanho de seu interior.
    Dessa forma, o curta também faz referência ao processo de luto. A perda de um ente querido é uma das experiências mais dolorosas para um ser humano. Esse processo se faz presente durante toda existência, e não se trata somente de um fenômeno orgânico, mas sim da perda de um elo entre uma pessoa e seu objeto, a separação, morte, a perda de valores atribuídos, perda do emprego, ou qualquer outra coisa que possa causar uma ruptura de identidade, caracterizando-se, portanto, como um processo mental. Essa experiência de perda e abandono é inerente à vida e faz parte de um processo de mudança que é experimentada por todos. Freud caracteriza o luto como uma fase de inibição do Ego, que é uma reação à perda de um ente querido, objeto libidinoso, ou qualquer coisa associada a este ente, o que é doloroso até que, em algum momento, o Ego fique outra vez desinibido. Esta fase é marcada pela ausência do objeto amado, da retirada de toda libido e seu deslocamento para outro objeto. O tempo de luto é variável, podendo durar anos, ou até mesmo nunca ser concluído. Durante os anos, um desespero, uma profunda tristeza e um desânimo podem aparecer juntamente com a memória do objeto perdido, característica presente no protagonista logo no início co curta.
    Para ele o cachimbo era um objeto carregado de significações, parece até ser seu único objeto de desejo, devido tamanha carência emocional. Infere-se que todo esse sentimento depositado no objeto seja porque ele representa uma fonte de aproximação com suas memórias e sentimentos, já que, conforme é mostrado no decorrer da história foi um objeto usado durante muitos anos, em vários momentos importantes de sua vida, e quando cai na água o velhinho experimenta mais uma perda, mais uma angústia. Seria preciso, então, elaborar essa perda de modo que a libido fosse deslocada para outro objeto. Porém, ele decide mergulhar para tentar resgatar o cachimbo. Esse mergulho representa o primeiro contato com suas lembranças, para que logo venha à tona uma quantidade muito maior de memórias que estão submetidas a graus mais profundos da censura que existe entre o inconsciente e a consciência. Assim que pega o cachimbo, sua memória mais recente, a imagem de sua falecida esposa, lhe toma de assalto. Então, instigado a entrar em contato consigo mesmo, o velhinho mergulha cada vez mais fundo, revivendo novamente variadas situações em que foi preciso conviver com uma separação e a perda, incluindo a morte da esposa, o namoro e o casamento da única filha, e até mesmo quando a menina, quando criança, deixa sua casa para ir à escola. E mergulhando mais fundo, revive o tempo em que a menina aprende a andar e a construir castelos de cubinhos de brinquedo, dando os primeiros sinais de independência. Chegando ao primeiro cubículo, o mais fundo, ele atravessa a porta e relembra os tempos de juventude, quando conheceu a esposa, se apaixonou, pediu-a em casamento e construíram a casa, o cubinho que seria a base para todas as próximas construções. Todos esses momentos tão significativos para o personagem haviam sido reprimidos no inconsciente, eram lutos mal elaborados que lhe fizeram esquecer todas aquelas passagens que são, na verdade, a construção de sua própria identidade e seu processamento psíquico. Ao olhar para o grande prédio em que se formou ele observa que os cubinhos vão se tornando cada vez menores. Assim, faz-se alusão à sua memória, que foi ficando cada vez menor a cada luto negado.

   A Casa dos Pequenos Cubinhos faz referência à terapia de abordagem psicanalítica, que mostra que é exatamente a memória daquilo que se viveu e construiu que pode revelar muitas respostas. As pessoas vão erigindo cubos que deixam imersas essas lembranças. A psicanálise contribui exatamente com a compreensão desses processos de luto e na possibilidade da elaboração, que é a consciência da perda e o processo normal do luto, e é o terapeuta quem possibilita o sujeito a tocar os pés nesse fundo.
   O curta termina com o velhinho brindando com duas taças de vinho, uma de seus tempos atuais e outra que fora resgatada daquela primeira casa submersa em que morou. Vasculhar a memória para entrar em contato com velhos sentimentos, elaborar lutos acumulados e se auto-redescobrir é isso: brindar o presente tomando uma taça de vinho com o passado.

 “Nada na vida psíquica pode se perder. Nada desaparece daquilo que se formou, tudo é conservado… e pode reaparecer…” – Freud

 

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